quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ma Musique!

A Música permite olhar a vida de fora, contemplar a unidade do mundo sem ser afetado por paixões individuais; assim distancia-se d’um sofrimento, mesmo que por um instante.
Ela mostra diretamente a essência íntima da vida, a vontade. É algo que se sente, realmente, na alma; não precisa ser explicada, pois que é entendida de uma forma muito natural e une qualquer pessoa, independente de raça, idioma, idade. Através da Música, se é capaz de contemplar a força que pode dominar, em vez de ser arrastado por ela; consegue-se o acesso à alegria mais profunda possível, a que vem do ‘eu’ mais íntimo. É a explicação do mundo, como se fossem moléculas, átomos, que, combinados, formam a água, o ar. O mundo é Música!
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Esse é um blog sobre a primeira arte. Aquela que exprime a mais alta filosofia, a que a razão dificilmente compreende, a que nunca revela seu último segredo, a que persuade docemente: a música.

Paul Mauriat - O maestro que encantou o mundo

O maestro francês que encantou o mundo
DE MARSELHA PARA O MUNDO

O maestro francês Paul Mauriat (Paul Julien André Mauriat, Marselha, 4/3/1925 - 3/11/06, Perpignan; França) é, talvez, o único artista capaz de ter sintetizado, na sua particular e prolífica discografia, toda a história da música mundial do século XX. Filho da contracultura européia, com formação erudita, mas amante da música norte-americana, o jazz, ousou na mistura de elementos de tudo o que orbitava o mundo no que diz respeito à música, cultura e tecnologias. O resultado é um legado extraordinário de uma arte mutante, sempre original, democrática, atemporal e eterna, ‘que não magoa ninguém’, como disse o guitarrista Duane Allman, que contempla todas as correntes de pensamento, todos os povos. Qualquer música arranjada por Mauriat adota uma beleza até mesmo exagerada. A estética criada por ele, clara, cool, e ao mesmo tempo forte, notável, se desalinha a qualquer padrão, tanto do popular, quanto do lírico.
Paul Mauriat, em 1998, Penelope
(para ver o vídeo, é só clicar na imagem)

Na busca de identificação apostou toda a sua energia vital na investigação e aperfeiçoamento constante de sua bem sucedida forma de comunicação, proporcionando a cada música um claro e vivo sentido pessoal identificável a léguas. A impressão é de leveza, riqueza, transparência, encanto, profissionalismo e acessibilidade a qualquer um. Foi aclamado como ‘Messenger of mood music’ e ‘Deus da música francesa do pós-guerra’, como há num artigo de um comentarista Chinês. Dizem os orientais, que o amam: ‘The king of world music’, mas mesmo assim, como disse um crítico, Mauriat é ‘inclassificável’. Classificar Mauriat é limitar o mundo, é deixar de poder tornar a vida mais interessante.

Mauriat cresceu em Marselha numa família de músicos tradicionalmente voltada para a música erudita. Foi matriculado aos 10 anos de idade no conservatório da mesma, onde estudou até a adolescência. Aos 14, é homenageado na sua graduação, pelo primeiro lugar alcançado. Apaixonado por jazz, viu-se o conjunto de sua ambição (a vocação à música sinfônica) tomar outro caminho. Aos 17 anos, formou sua 1ª banda e durante a Segunda Guerra Mundial tocava nos Music Halls espalhados por toda a França.
Paul Mauriat, o 2º da esquerda para direita, com Marcel Bianchi, 1º à esquerda, em 1948, 49

Mauriat e sua orquestra na luxuosa boate Le Vamping, em 1952

"Paul Mauriat et Orchestre", em meados dos anos 1950

Mais tarde, foi contratado pela divisão francesa da norte-americana ‘A & R’ (Artists and Repertoire) para fazer alguns acompanhamentos em shows e foi à Paris, finalmente, núcleo musical importante naquela época, mundialmente. A ‘A & R’ é, até hoje, uma empresa que reputa brutos talentos musicais, sendo que descobriu e agenciou artistas do calibre de Billie Holiday, Bob Dylan, Bruce Springsteen e Aretha Franklin, para citar alguns. Nesse métier, foi notado por Charles Aznavour que o contratou como seu arranjador.
Em 1951, Paul Mauriat, de preto, com Jo Valon,
seu amigo, 2º da direita para esquerda

Nos anos 1950, Paul Mauriat participou das
emissões da Radioffusion et Télévision Française
juntamente com as apresentações no Le Vamping

Mauriat dizia que os contatos que Aznavour o proporcionou naquele tempo foi a parte mais importante de sua vida. No decorrer dos anos 50 ele tornou-se diretor musical para alguns dos mais conhecidos cantores franceses da época como Maurice Chevalier, Henri Salvador, Dalida, Leny Scudero, entre outros, excursionando e gravando com eles, além de com Aznavour.
Mireille Mathieu, Paul Mauriat e Charles Aznavour em 1966

Em 1957, lançou seu primeiro álbum, ‘Paul Mauriat’, um single com quatro faixas pela gravadora RGM. Entre 1959 e 1964 Mauriat gravou vários álbuns para a gravadora Bel-Air sob o nome de ‘Paul Mauriat et Son Orchestre’, bem como a utilização de diversos pseudônimos, como Richard Audrey, Nico Papadopoulos, Eduardo Ruo e Willy Twist, para refletir melhor o sabor internacional das suas gravações. Durante este período, também fez várias gravações com o selo Les Satélites, onde dispunha criativamente de harmonias vocais como suporte para esses álbuns como Slow Rock e Twist, (1961), A Malypense (1962) e Les Satélites Chantent Noel (1964).
Paul Mauriat no cinema, com Raymond Lefevre, entre 1961 e 1964
(clicando na imagem, vê-se a 1ª parte de um dos filmes que
Paul Mauriat e Raymond Lefevre musicaram, "Le Gendarme in New York")




Mauriat compôs a música para várias trilhas sonoras para o cinema francês (também lançadas pela Bel-Air), incluindo Tobrouk Pour Un Táxi (1961), Horace 62 (1962) e La Banque Faits Sauter (1964), Le Gendarme a New York (1964), entre outros filmes, particularmente os de Charles Aznavour.
André Pascal, letrista, e Paul Mauriat em 1960

Ele escreveu sua primeira canção de sucesso com André Pascal. Em 1958 eles foram premiados na ‘Coq d'or De La chanson française’ com ‘Rendez-vous au Lavandou’, gravada por Henri Salvador, posteriormente. E em seguida outra se popularizou rapidamente: "La Longue Marche". Usando o pseudônimo de Del Roma, Mauriat alcança o seu primeiro hit internacional com Chariot, que ele escreveu em colaboração com os amigos Franck Pourcel (co-compositor), Jacques Plante (letras) e Raymond Lefevre (orquestrador). Nos E.U.A. a canção foi gravada como ‘I Will Follow Him’, para ‘Little Peggy March’ e se tornou nº 1 na Billboard em todas as categorias por 3 semanas. No início dos anos 90, essa canção foi tema principal dos filmes Mudança de Hábito I e II (Sister Act), estrelados por Whoopi Goldberg, além de ter sido regravada por vários artistas internacionais. Recentemente, Eminem a utilizou num remix para a canção ‘Guilty Conscience’. Aliás, recentemente o rapper norte-americano Snoop Dogg também fez uma versão, mas para ‘Plaine, ma plaine’, de Mauriat, 1965.
Programa da turné nos E.U.A. e Canadá em 1969

Em 1965, Mauriat criou uma relação formal com a causa de sua vida, e consegue a representação de seu próprio estilo, estética, ganhando uma reputação global até hoje reconhecida. Assim, foi estabelecida ‘Le Grand Orchestre de Paul Mauriat’, realizando centenas de gravações e compilações através da marca Philips para os próximos 28 anos. Em 1994 ele assinou com a gravadora japonesa ‘Pony Canyon’, onde re-gravou alguns dos seus maiores hits e escreveu novas composições.
Anúncio do concerto em New York, 1969

Em 1968, L'amour est bleu’ (‘Love is blue’), lançada no ano anterior, 1967, permaneceu por 6 semanas em 1º lugar na ‘Billboard’ norte-americana, com o álbum ‘Blooming hits’, uma seleção (mais de 6 milhões de cópias vendidas até hoje, diz-se), fixando um recorde como o 1º artista francês e instrumental a conseguir tal proeza. Chegou ao ‘Top 100’ da mesma, apenas atrás do álbum ‘Hey Jude’, dos Beatles.



Mauriat se baseou fortemente em cordas, levadas rítmicas e sintetizadores para criar uma interessante música.
Building The Groove, 1996
(para ver o vídeo, é só clicar na imagem)

As modalidades são geralmente brilhantemente ricas e ocupadas com o uso racional do ponto de percussão para entregar um desempenho de grande estilo.
"Agora", com Jean Bernard (seu amigo de infância,
desde o conservatório de Marselha), em 1996
(para ver o vídeo, é só clicar na imagem)

Era metódico e perfeccionista com rigoroso profissionalismo e árdua investigação na melhoria das músicas; seu estudo sobre deixou um importante legado técnico para as gerações que aí estão, particularmente em relação às gravações ‘multi-track’, nas quais era um pesquisador incansável.
Entre dos aguas, com Paco de Lucia, 1974
(para ver o vídeo, é só clicar na imagem)

Por muito tempo suas gravações foram utilizadas para testar equipamentos de som.
Paul Mauriat com Valentin Coupeau, produtor, nos anos 1970

Mauriat gravou álbuns na Inglaterra, Estados Unidos, Japão e Brasil, utilizando músicos de vários países e acredita-se que tenha vendido mais de 40 milhões de cópias em todo mundo, mas a maior parte de seu repertório foi gravado na França, nos estúdios ‘Des Dames’, sob a batuta do engenheiro de som Dominique Poncet.
'I won t last a day without you', 1974, com a versão pronta
e a sessão de mixagem multi-track, em estúdio. É só clicar
no nome da música, ou na imagem abaixo, para
fazer download do áudio dessa sessão:
Paul Mauriat com Dominique Poncet,
engenheiro de som, e Gerard Gambus, à direita

Entre 1967 e 1972, ele escreveu várias músicas para Mireille Mathieu; a premiada ‘Mon Credo’ (1,4 milhão de cópias vendidas), ‘Viens dans ma rue’, ‘La première etoile’, ‘Geant’, etc (para citar apenas alguns) e contribuiu com 130 modalidades de canções para Charles Aznavour. Em 75 ‘Elle Arrive Aujourd'hui’, composta por Mauriat, teve o primeiro prêmio no Festival de Palma de Mallorca (Espanha), com John Gabilou no vocal. Além disso, escreveu para Caterina Valente e Alcione no decorrer dos anos 70. Em 1985, escreveu, em revival, mais uma obra prima para Mireille Mathieu: C'etait le premier rendez vous.
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Reconhecido internacionalmente, ganhou discos de ouro em vários países, ‘Grand Prix du Disque’ na frança, troféu ‘Midem’ (The World Music Communyt), foi convidado para compor a ‘International Federation of the Phonographic Industry’, sediada em Londres, e em 1997 ganhou a distinção de prestígio ‘Commandeur des Arts et des Lettres’ do Ministério da Cultura da França.



Relativo aos seus pares, tem o maior catálogo de gravações, alcançado a cifra de mais de 1500 títulos e seus mais de 1000 concertos fascinaram mais de 3 milhões de espectadores, de acordo com o selo Universal Music. Sua aparição televisiva no ‘Sullivan Theater’ (Ed Sullivan Show) obteve resposta entusiástica e logo a NHK japonesa o convidou para uma performance a qual foi recorde de audiência em 1969. No final dos ano 70, foi capaz de acomodar 12.000 pessoas no estádio Budokan, em Tóquio.
No programa Ed Sullivan, 1970

(Je t'aime moi non plus, de Serge Gainsbourg, hino da liberação sexual dos anos 60, um dos sucessos de Mauriat, na época)
Mauriat, Jane Birkin, e Serge Gainsbourg

Nas turnês internacionais, fazia questão do intercâmbio entre músicos locais e os de sua orquestra, rompendo os limites culturais impostos por Paris, como ele mesmo dizia. Descobriu trompetistas mexicanos, citados várias vezes por ele, violonistas brasileiros de espetacular técnica e performance, entre outros. Nos anos 70 e 80, nos seus concertos ao vivo, Mauriat freqüentemente utilizou backing vocals (particularmente as brasileiras Eva, Mariza e Regina, do ‘Trio Esperança) para fornecer suporte para alguns números e seções que ele organizou para seus concertos. Eva acabou casando com o braço direito de Mauriat, o pianista Gerard Gambus, parceiro por mais de 10 anos (mais ou menos entre 72 e 82).

Estádio Budokan, Tóquio, 1979; platéia de 12.000 pessoas
(na imagem acima, um link para
uma parte de um concerto de 1980)






Também fez vários comerciais, para o Japão, de café e vinhos com sua música e hoje há uma confecção e uma linha de saxofones, trompetes e acessórios leva seu nome. Durante várias décadas, as composições da Mauriat serviram como trilhas musicais para vários programas de televisão, novelas, comerciais e filmes de vários países.

Nas imagens acima, o link para o site da Mauriat Music

Mauriat se despediu dos palcos no final de 1998, num show em Osaka, mas a sua orquestra ainda mantém turnês de sucesso, antes levadas pelo antigo parceiro e ex-pianista da orquestra, Gilles Gambus (trabalhou por 25 anos com o maestro e irmão de Gerard) e hoje pelo trompista Jean-Jacques Justafre, particularmente pela Ásia, onde mantém um público fiel. Em 2002, escritor e comentarista, Serge Elhaik escreveu a biografia de Mauriat oficial e autorizada chamada de ‘Une vie en bleu’.



Gilles Gambus e orquestra, seguindo o legado.
(na imagem acima, o vídeo de "I Love Earth", de Gilles, em concerto de 2007)


Mauriat correu em direção à eternidade aos 81 anos, na sua casa, no sul da França, em Perpignan. Crescemos com suas cores brilhantes e com o fantástico caleidoscópio em infinitas formas que leva seu nome, o qual, na sua partida, nos deixou como um legado que devemos saber manter em alta para além das nossas vidas. Sua música embarcou junto com nossos sentimentos num avião sem espaço nem tempo, recebida serenamente e se transformando definitivamente na água, no ar, na terra, na lua, nas estrelas e no sol.

Em nossos sonhos, em nosso cotidiano, a sua arte estará sempre presente. Nessa música que nos deu chuvas nas tardes quentes, calor e fogo nas noites mais frias, hoje parece cobrir com imensa bondade um universo de almas e corações que ele amava, onde cada qual é cada nota na sua pontuação, notas que ele escreveu para seus mais próximos afetos: nós.
A sabedoria dos homens não é medida pelo seu conhecimento acadêmico; a sabedoria dos homens encontra sua definição da sua projeção espiritual. E Mauriat, espalhou no ar sua razão para o mundo na forma de música, assim como consideramos os 4 elementos.

Modesto, sóbrio, simpático, honesto na sua arte e na sua vida pessoal, Paul estará sempre perto de nós, e talvez mais ainda a cada vez que ouvimos sua música, pois para ela viveu e vive nas harmonias que parecem inesgotáveis.


As estrelas tremeram com dor no dia 3 de novembro de 2006. Mas cresceram e voltaram a brilhar quando ouviram na vida eterna a luz infinita da música saída de suas mãos.

Anúncio do concerto de 2009,
com regência de Jean-Jacques Justafre:

CRÉDITOS E AGRADECIMENTOS:

Esse trabalho é fruto de um solidário esforço coletivo de pessoas de vários países, de várias origens étnicas e culturais, o qual começou no início da comunidade existente no site de relacionamentos Orkut, particularmente pelo Prof. Lenimar Andrade, que por sua vez recebeu a maioria desses arquivos do Peter Wang. Algumas capas, de alta resolução, foram confeccionadas por um fã de Brasília, que as disponibilizou para o Lenimar, também. Há contribuição do César Mancuso, do Eduardo Fleck, do Pedro A. P. Jr., do Marcelo Ferrari, do Nelson Netto, da comunidade, do Roberto Martini, da Argentina, que detém parte desse acervo e é autor de uma parte do texto acima, assim como o Diómedes Cruz, da República Dominicana, ao Serge Elhaiik, França, autor da biografia oficial de Mauriat, entre outros parceiros. No meu esquecimento em relação aos créditos, por favor, completem aqui. OBRIGADO!

Paul Mauriat e a orquestra, na Rússia, em 1977.

AN PASSANT - DOWNLOADS E COMENTÁRIOS:

Segue nos links ano a ano, um compêndio de comentários pessoais, meus, sobre a obra de Paul Mauriat, de todos os tempos.

A fim de que seja eternizada a fantástica música e obra de Mauriat, tão subestimada pelas gravadoras ocidentais, no link "DISCOGRAFIA, 1957 A 2009", um pack para colecionador com quase 1600 músicas e mais de 7 gigas disponíveis, com praticamente toda obra oficial do maestro e em ótima qualidade, alto bitrate, além de gravações amadoras de alguns shows (algumas boas outras nem tão), com as últimas apresentações de Gilles, algumas versões com outros artistas, algumas com vocal, músicas que nunca foram lançadas comercialmente, alguns remixes que djs fizeram recentemente em cima de músicas de Mauriat e etc, de 1957 até hoje (É só copiar o endereço que está disponível e colar na barra de endereços do Explorer ou outro navegador). No link "Paul Mauriat - Capas", há capas dos álbuns para download, tanto de cd como de vinil, de todos os tempos e lugares. E em "Paul Mauriat - Vídeos", vários vídeos de 1968 a 1998.
Nos comentários época a época, algumas compilações das melhores músicas de cada ano. É só clicar nas capas que estão ilustrando os posts para baixar.
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Vale a lembrança que nenhuma, infelizmente, obra aqui disponível está em catálogo no comércio convencional.


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